Ruim para o crescimento e muito prejudicial à maior parte das famílias, a manutenção de juros altos é parte dos efeitos impostos ao Brasil pela guerra no Oriente Médio. A economia brasileira, disseram analistas logo depois do ataque ao Irã por Estados Unidos e Israel, seria beneficiada pelo novo conflito. Ganharia mais com exportações de petróleo e poderia, talvez, lucrar mais com outras linhas de comércio. Mas a insegurança internacional impõe custos, frequentemente, a países pacifistas e distantes das áreas conflagradas.

Esses custos foram lembrados por dirigentes do Banco Central (BC) seis dias depois de terem anunciado um corte de apenas 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros. Segundo esses dirigentes, membros do Comitê de Política Monetária (Copom), a guerra tornou “consideravelmente” mais incerto o ambiente externo, afetando as condições financeiras globais e elevando riscos de inflação.

“Tal cenário”, segundo a ata da reunião do Copom, “exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”. O crescimento da economia já se tornou mais lento no trimestre final do ano passado, lembraram os autores do comunicado, mas “o mercado de trabalho segue resiliente”.

Boa notícia para trabalhadores e grande parte dos políticos, essa resiliência indica, no entanto, um efeito ainda insuficiente do aperto monetário, isto é, das condições de financiamento. O aperto menor que o pretendido é indicado também pelas expectativas de inflação – 4,1% para este ano e 3,8% para o próximo – acima, portanto, da meta oficial (3%).

Embora insuficiente até agora, o efeito moderador é reconhecido pelos condutores da política monetária. Isso oferece algum espaço, segundo eles, para um início de redução da taxa básica de juros, a Selic. A sigla indica o Sistema Especial de Liquidação e Custódia, operado pelo BC e destinado ao registro e à liquidação de transações com títulos federais. Com esse corte inicial, decidido na reunião dos dias 17 e 18 de março, a taxa básica passou de 15% a 14,75% ao ano.

Foi uma redução quase simbólica, apenas suficiente para indicar o início de um afrouxamento. Mas, diante da enorme incerteza global – e também interna, é preciso reconhecer –, nenhuma indicação clara dos próximos passos foi incluída no texto. Essa indicação apareceu regularmente em comunicados anteriores. O detalhe vale também como um recado ao governo sobre a cautela necessária, mas frequentemente negligenciada, na condução dos gastos federais.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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