Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, enfrenta um teste de autonomia ao decidir sobre a Selic em meio a pressões políticas e um choque externo nos preços do petróleo. Com a Selic em 15%, o BC deve anunciar um corte menor que o esperado, de 0,25 ponto percentual, devido à inflação. O PT, crítico de juros altos, pode pressionar por cortes maiores, especialmente em ano eleitoral. Galípolo, no entanto, prioriza a credibilidade institucional, evitando decisões políticas que comprometam a estabilidade econômica.

A gestão de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central (BC) tem sido marcada por um pragmatismo que surpreendeu os céticos iniciais. Até o momento, o presidente do BC manteve uma postura independente e tecnicamente correta, sustentando a Selic no nível elevadíssimo de 15% para assegurar a convergência da inflação à meta. No entanto, o cenário atual impõe um novo e mais difícil teste de autonomia para Galípolo: a colisão entre um choque externo severo e a pressão política doméstica para que os juros caiam de forma rápida num ano de eleição presidencial que promete ser extremamente apertada.

O Banco Central telegrafou o corte inicial da Selic do esperado ciclo de baixa para a reunião do Copom que será concluída hoje. O mercado, que apostava inicialmente em 0,5 ponto porcentual (pp) de corte agora se inclina para os 0,25pp, com a eclosão do choque global nos preços do petróleo. O aumento repentino nos custos de energia e transportes gera pressão inflacionária direta e indireta, elevando o risco de desancoragem das expectativas de longo prazo e pressionando os índices de preços ao consumidor.

Diante desse fato novo, seria natural que o BC reavaliasse o “orçamento” de cortes da Selic. Se o BC concluir que o cenário inflacionário piorou e que os riscos de segunda ordem são reais, a decisão técnica esperada seria reduzir ou até adiar o início da flexibilização, e diminuir significativamente a magnitude das quedas previstas. Ignorar essa variável externa em nome de um plano de voo elaborado antes da Guerra no Irã colocaria em xeque a independência do BC.

O problema, porém, é o calendário eleitoral. Galípolo não sofreu até agora as críticas ferozes que Lula e o PT direcionaram ao seu antecessor, Roberto Campos Neto, nomeado por Bolsonaro. O atual presidente foi criticado, mas de forma bem mais amena e protocolar.

Agora, porém, com Flávio Bolsonaro encostando em Lula nas pesquisas para o segundo turno, o PT, historicamente crítico da política monetária restritiva, deve ficar bem insatisfeito se a Selic cair menos que o esperado. O partido, como se sabe, defende juros baixos para estimular o consumo e a economia, e não deve se convencer de que conservadorismo é necessário para lidar com o choque de oferta internacional.

O risco é que Galípolo deixe de ser apenas o técnico que ganhou o respeito do mercado, e se torne alvo de fogo amigo agressivo da campanha de Lula. A grande dúvida é se o atual presidente do BC vai manter a sua gestão técnica e autônoma, caso haja pressões redobradas de Lula e do PT em defesa de cortes acelerados.

Galípolo tem reiterado que “o BC não briga com dados” e que a instituição deve agir com cautela sempre que houver dúvidas sobre o cenário futuro. Sua conduta até aqui sugere que ele compreende o valor da credibilidade institucional.Uma guinada puramente política neste momento poderia destruir o capital de confiança acumulado com o mercado, com risco até de pressões no câmbio, o que ironicamente prejudicaria a própria economia que o governo tenta acelerar.

Entregar os cortes de acordo com a necessidade da campanha eleitoral iria, obviamente, na contramão dos procedimentos corretos do regime de metas de inflação. A verdadeira prova de fogo de Galípolo será sua capacidade de sustentar uma postura adequada à nova conjuntura pós-choque do petróleo (que depende, claro, da difícil avaliação sobre a duração do choque) independentemente do ruído político e das conveniências eleitorais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/3/2026, quarta-feira.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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