BRASÍLIA — O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, é suspeito de usar uma empresa investigada por lavar dinheiro para comprar obras de arte no período em que liderava a instituição. As obras foram compradas de uma galeria investigada na Operação Lava Jato, a Almeida & Dale.

Procurada, a galeria afirmou que as negociações foram regulares. A defesa de Vorcaro afirmou que não comenta material de conteúdo sigiloso (leia mais abaixo).

A Polícia Federal encontrou anotações de Daniel Vorcaro no bloco de notas de um dos celulares usados por ele registrando supostos pagamentos para a galeria de arte. Os documentos foram enviados para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS no Congresso Nacional.

Segundo pessoas que tiveram acesso ao material ouvidos pela reportagem sob condição de anonimato, as anotações registram valores de “10 milhões” no dia 4 de abril de 2024, “10 milhões” no dia 4 de maio de 2024 e ”10 milhões” no dia 4 de junho de 2024 para a galeria de arte Almeida & Dale.

Também há uma anotação sobre “6 parcelas de 22.500,00 a primeira em 09/05/2025″ para a mesma galeria. Sobre essas últimas parcelas, há dúvidas se o valor se trata de R$ 22,5 mil ou R$ 22,5 milhões.

A suspeita é de que Vorcaro tenha usado a empresa Super Empreendimentos e Participações S.A. para comprar as obras de arte. Segundo a PF, a Super foi usada para financiar as atividades do grupo liderado pelo banqueiro, incluindo o monitoramento de pessoas e obtenção de informações, em parceria com o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, e Felipe Mourão, o “Sicário” do banqueiro. A reportagem não conseguiu contato com a empresa.

De acordo com decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça que ordenou a prisão de Daniel Vorcaro, no dia 4 de março, a Super também foi usada em pagamentos ilícitos, investimentos vinculados ao Master, estrutura intermediária para movimentação de recursos e operações potencialmente voltadas à ocultação de recursos.

A Super também é citada pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em movimentações suspeitas. O órgão identificou conexões entre a Reag Investimentos e o Master por meio do fundo Termópilas, que controlava a Super, dona de uma casa de R$ 36 milhões em Brasília usada por Vorcaro para encontros com políticos.

Em relatório à CPI do Crime Organizado, o Coaf apontou pagamentos que somam R$ 30 milhões de fundo da Reag para a empresa entre 2020 e 2025. Segundo o órgão, “o cenário demonstra a existência de movimentações financeiras afim de dificultar o rastreamento, composta por diversas camadas complexas.”

As declarações à Receita Federal mostram uma evolução no patrimônio de Daniel Vorcaro em jóias, relógios e obras de arte. Em 2017, ele declarou um patrimônio de R$ 1,2 milhão com esses tipos de itens. Em 2023 e 2024, foram R$ 47 milhões.

O Imposto de Renda do banqueiro mostra uma declaração de bens de R$ 2,8 milhões em 2015 contra outra de R$ 2,6 bilhões em 2024, conforme a documentação entregue por ele ao Fisco em 2025. Os valores são nominais, sem correção monetária.

Galeria na mira

A Almeida & Dale se apresenta como “uma das galerias mais relevantes no Brasil”. A empresa foi investigada por lavagem de dinheiro para políticos alvos da Operação Lava Jato, denunciados em 2019.

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Na ocasião, a Lava Jato abriu uma investigação para apurar o uso da galeria para lavagem de dinheiro em um caso envolvendo o filho do ex-senador Edison Lobão (MDB-MA), Márcio Lobão. Em outro caso, a força-tarefa começou a apurar uma suspeita de que o ex-senador Luiz Estevão teria lavado R$ 65 milhões por meio da mesma galeria.

Em nota, a galeria Almeida & Dale confirmou que intermediou a venda de obras de arte pertencentes a clientes para a empresa Super Empreendimentos entre abril de 2022 e abril de 2025. A empresa alegou que os negócios foram regulares e anteriores a qualquer questionamento público envolvendo a em companhia.

“Todas as negociações foram conduzidas por meio de um intermediário independente, um advisor especializado no mercado de arte que representava a Super Empreendimentos. A galeria, seus sócios e colaboradores jamais tiveram contato direto com os sócios ou dirigentes da empresa compradora”, disse a Almeida & Dale.

A empresa de arte afirmou ainda que “emitiu regularmente notas fiscais”, “as transações foram formalizadas por meio de contratos e registros comerciais, e os respectivos comprovantes de recebimento e documentação fiscal encontram-se devidamente arquivados pela galeria, conforme exigido pelas normas legais e contábeis.”

A defesa de Vorcaro disse em nota que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”. “Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração”, diz o texto.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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