Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles

Crédito: Larissa Burchard/Laís Nagayama

BRASÍLIA – O aumento da incerteza provocado pelo conflito no Oriente Médio deve marcar o tom da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que tem início nesta terça-feira, 17. Às vésperas do encontro, prevalece entre analistas a avaliação de que o corte de juros praticamente já contratado deve ocorrer, mas acompanhado de uma comunicação enfática sobre uma condução cautelosa da política monetária.

A volatilidade nos preços do petróleo elevou a probabilidade de um corte inicial mais modesto do que o esperado anteriormente, mesmo diante de um comportamento mais benigno do câmbio. Pesquisa feita na segunda-feira, 16, pelo Projeções Broadcast aponta que a maioria das instituições do mercado financeiro passou a projetar um corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic. Este é o cenário-base de 25 de 33 (76%) instituições de mercado consultadas.

Esses números invertem a maioria apontada na pesquisa realizada na quinta-feira, 12, quando 20 de 32 (62,5%) instituições previam um corte de 0,5 ponto porcentual. Na pesquisa desta segunda-feira, 16, apenas 7 de 33 (21%) instituições projetam corte de 0,5 ponto na Selic, enquanto uma instituição prevê manutenção da taxa em 15%.

O barril de petróleo Brent, referência internacional para o preço da commodity, atingiu um pico próximo de US$ 120 no dia 9, no auge das preocupações internacionais com a segurança da produção e do transporte de petróleo. Nos dias seguintes, o mercado chegou a reduzir parte do prêmio de risco embutido nas cotações. A volatilidade continua e há o receio de que a alta da commodity seja duradoura, com pressões sobre a inflação.

Os temores inflacionários já aparecem no relatório Focus. No boletim publicado na segunda-feira, a mediana para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 subiu de 3,91% para 4,10% — ainda abaixo do teto da meta de inflação, de 4,5%. Para a inflação suavizada nos próximos 12 meses, a estimativa aumentou de 3,94% para 3,99%.

“Hoje achamos que é muito mais provável o Banco Central cortar 0,25 ponto do que 0,50 ponto, diante dessa incerteza toda em relação a quanto tempo o preço do petróleo vai ficar alto”, afirma a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour.

Ela observa que essa probabilidade maior se dá apesar da comunicação oficial do Banco Central após a reunião de janeiro. “As últimas aparições e discursos, mesmo com a guerra já iniciada, eram de que a calibragem não mudaria, mas eu acho que, diante dos últimos acontecimentos e do risco que tem da volatilidade, é mais provável cortar 0,25 ponto.”

Na reunião de janeiro, o colegiado afirmou que, em se confirmando o cenário esperado, antevia iniciar a flexibilização da política monetária na reunião de março. O Copom não chegou a sinalizar qual seria a magnitude do corte, mas o consenso de mercado se inclinou para uma redução de 0,50 ponto. No início de fevereiro, uma declaração do presidente do BC, Gabriel Galípolo, foi lida como um endosso a essa estimativa.

“Eu acho que o mercado vem consolidando uma interpretação do que tem sido a comunicação oficial do BC e não há qualquer intenção aqui na minha fala de fazer qualquer tipo de reparo sobre como a gente tem se comunicado e como tem sido interpretado”, disse, em evento do BTG Pactual.

No início deste mês, o diretor de política monetária do BC, Nilton David, enfatizou que há espaço para calibrar a Selic. “Essa é uma das belezas que existem ao se ter um juros um pouco mais alto por conta de outras razões, lhe permite também absorver esses ruídos”, afirmou em evento do Goldman Sachs.

Diante do risco elevado para a inflação, o ideal para Srour seria até que o colegiado não realizasse um corte no encontro desta semana. Ela pondera ser pouco provável que isso ocorra.

“O risco de a inflação não ser tão benigna aumentou. Existe, inclusive, o risco da inflação esperada para este ano — que não é o horizonte relevante —, ficar acima da meta, e isso vai impactar o ano que vem, que é mais ou menos o horizonte relevante, 18 meses à frente”, diz. “Esse choque de oferta pode se propagar com mais facilidade em uma economia que está com a demanda aquecida, com o mercado de trabalho extremamente apertado e com uma inflação corrente que não é benigna. O juro real está muito alto? Está, mas o impacto disso na atividade não tem se traduzido como a gente esperava, nem na inflação.”

O economista-chefe para o Brasil do Barclays, Roberto Secemski, mantém, desde julho, projeção de que o corte inicial da Selic agora será de 0,25 ponto. O início moderado se justificaria pela inflação ainda resiliente de bens não comercializáveis e o tempo demandado para mapear os impactos efetivos sobre a economia da maior isenção do Imposto de Renda e do aumento do salário mínimo, que passaram a vigorar no início deste ano.

Ele afirma que chegou a ter a confiança nessa estimativa abalada, devido à fraqueza registrada pelo dólar e declarações recentes dos membros do BC. Mas a previsão voltou a ganhar força com as leituras mais recentes de inflação e de atividade econômica somadas ao conflito no Oriente Médio.

“Um corte de magnitude menor seria útil nesse sentido de comprar mais tempo para entender a complexidade do choque e sua magnitude, mas a sua persistência também. Ao começar devagar, você pode ter um acesso melhor a situação antes da próxima decisão e ir tateando quanto espaço tem”, diz.

Secemski entende que a chance de um corte de 0,50 ponto está cada vez menor, mas não a descarta completamente, especialmente se o Comitê utilizar um cenário alternativo para os preços do petróleo, como fez em março de 2022, após a invasão da Ucrânia, para dissipar parte do choque. /Com Daniel Tozzi, Gabriela Jucá e Letícia Correia

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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