‘Sicário’ de Vocaro: o executor de ‘práticas violentas’ na organização de Vorcaro, segundo a PF
LF: Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão foi preso na Operação Compliance Zero e se suicidou na cela.
Em Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro teria orientado Luiz Phillipi Mourão a negociar patrocínio com o site Diário do Centro do Mundo (DCM) para evitar publicações negativas sobre o Banco Master e atacar concorrentes. Vorcaro atribuiu ataques ao Itaú. O DCM nega envolvimento e afirma não ter recebido pagamentos. A Polícia Federal investiga a tentativa de influenciar a opinião pública. A defesa de Vorcaro critica vazamentos ilegais. O caso está sob investigação do STF.
BRASÍLIA – O banqueiro Daniel Vorcaro orientou um auxiliar seu, o “Sicário” Luiz Phillipi Mourão, a negociar um patrocínio ao site de esquerda Diário do Centro do Mundo (DCM) com o objetivo de barrar a publicação de informações desfavoráveis ao Banco Master e “bater nos inimigos”, de acordo com informações exclusivas do inquérito obtidas pelo Estadão.
Procurado, o DCM afirmou que “a narrativa apresentada parte de uma premissa que simplesmente não encontra respaldo em qualquer documento oficial conhecido” e que tem publicado reportagens críticas sobre Vorcaro e o Master. (Leia mais abaixo).
A defesa de Vorcaro disse que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso” (leia mais abaixo).

Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master
Em 10 de outubro de 2024, Vorcaro enviou ao Sicário o link de um texto negativa do DCM sobre como o mercado financeiro desconfiava da atuação do Master e criticou a publicação. Também enviou outro link reclamando de um texto com o título: “Altas taxas de juros e reclamações assombram operações consignadas do Banco Master”.
A reportagem do Estadão fez uma busca de textos usando o termo “Banco Master” no site do DCM em 2024. Aparece uma publicação, de 16 de julho, sobre investimentos financeiros: “O Banco Master, por exemplo, já emitiu mais de R$ 2,5 bilhões em Letras Financeiras, sendo classificado pela Fitch como ‘B+’, refletindo a estabilização de seu perfil financeiro e bons patamares de liquidez e qualidade de ativos”.
Após reclamar dos textos do DCM, Vorcaro escreveu ao Sicário: “Cara, vamos contratar eles pra fazer isso com os outros. E não comigo. Usar eles pra bater nos inimigos. Aí eu faria um pacote patrocínio mensal”.
O Sicário, então, pediu a um intermediário para fazer o contato e negociar esse serviço. Pouco depois, enviou a Vorcaro uma mensagem encaminhada desse intermediário: “Mestre, o diretor perguntou como seria a parceria e querem saber sobre os alvos, pra fecharmos o negócios (sic). E ele nos mostrou que foi firme não só removeu uma matéria mas como todas negativas que estavam no site”.
Vorcaro respondeu atribuindo os ataques a ele a um banco concorrente, indicando que esse deveria ser um dos alvos. “Por enquanto quem está me atacando é o Itaú”, disse ao Sicário. Procurado, o Itaú disse que não iria comentar.
Na conversa, o Sicário não cita quem seria o interlocutor do site responsável por negociar esse patrocínio.
Em um diálogo posterior, como mostrou o Estadão, o Sicário relatou a Vorcaro os pagamentos ao site, sem dar detalhes sobre os recebedores e nem o valor exato da cifra: “Os meninos mando 75 pra cada, o meu. O DCM e mais dois editores. É este o mensal”.
Para a Polícia Federal, essa atuação é mais uma demonstração de como Vorcaro buscava influenciar a opinião pública para conseguir obter benefícios ao Banco Master. Posteriormente, segundo a PF, esse mesmo modo de operação foi acionado para mobilizar influenciadores digitais com ataques ao Banco Central contra a liquidação do Master.
Em nota à época, o DCM negou que a menção seja uma referência ao site. “O DCM não recebeu recursos, pagamentos ou qualquer benefício das pessoas investigadas na operação e não possui qualquer relação com os fatos apurados”, afirmou.
A defesa de Vorcaro disse em nota que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”.
“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, diz o texto.
O que diz o DCM
A narrativa apresentada parte de uma premissa que simplesmente não encontra respaldo em qualquer documento oficial conhecido.
Até o presente momento:
* o Diário do Centro do Mundo não é citado nominalmente na decisão judicial relacionada à chamada “Operação Compliance Zero”;
* a razão social do veículo (NNA Produções Artísticas Ltda.) não aparece em qualquer trecho do processo;
* nenhum jornalista ou colaborador do DCM figura como investigado ou mencionado nas investigações;
* não há qualquer registro documental que associe o veículo a pagamentos ou contratos com os investigados.
Há, ainda, um elemento factual incontornável que contraria a hipótese sugerida em sua mensagem: o Diário do Centro do Mundo é um dos veículos que mais publicou reportagens críticas sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Diante disso, a hipótese de que o veículo teria firmado qualquer tipo de acordo para “retirar matérias negativas” ou “atacar adversários” não apenas carece de prova, como é frontalmente contradita pelo próprio histórico editorial público do jornal.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







