Petróleo e gás disparam; Bolsas operam em queda após ataques ao Irã
Guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irã afeta a economia mundial. Hoje, preço do petróleo e do gás dispararam enquanto as Bolsas operavam em queda. Crédito: Crédito: AFP
RIO E SÃO PAULO – A oferta de diesel está em risco no Brasil devido ao aumento do preço do produto no mercado internacional, que como consequência da guerra no Irã descolou do praticado no mercado interno pelas refinarias brasileiras e inviabilizou importações.
No Rio Grande do Sul, há relatos de cancelamento de entregas de combustível a produtores rurais desde a sexta-feira, 6. A Federação da Agricultura gaúcha (Farsul) e a Federação das Associações de Arrozeiros (Federarroz) expuseram o problema no fim de semana, em momento de forte demanda por diesel para o funcionamento de máquinas agrícolas e o transporte da produção.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirmou que há dificuldades pontuais de aquisição de diesel por produtores rurais no Rio Grande do Sul. De acordo com a ANP, a produção e a entrega do combustível seguem em ritmo regular pelo principal fornecedor gaúcho, em Canoas, cidade vizinha a Porto Alegre — a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras.

Emergencialmente, representantes do agro pedem aumento da mistura do biodiesel na composição do combustível Foto: Wilson Junior/Estadão
“Cabe destacar que o Rio Grande do Sul é um Estado que produz mais diesel do que consome, encontra-se com nível de estoque regular, e não foram constatadas justificativas técnicas ou operacionais que expliquem uma eventual recusa no fornecimento do produto”, explicou a agência.
Segundo a ANP, durante o final de semana, a agência entrou em contato com os principais fornecedores da região e apurou que o Estado conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular de diesel. Aumentos de preços injustificados no Estado também serão objeto de investigação da ANP em conjunto com órgãos de defesa do consumidor.
“Equipes técnicas da ANP estão realizando verificação das instalações e operações relevantes. As distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos”, disse a ANP em nota, ressaltando que está preparada para adotar todas as medidas cabíveis a fim de assegurar a continuidade e a normalidade da oferta de diesel no País.
Ameaça à safra
A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) manifestou preocupação nesta segunda-feira, 9, com a interrupção no fornecimento de diesel a propriedades rurais em meio à colheita da soja e ao plantio do milho segunda safra. Em nota, a entidade afirmou que a situação ocorre em momento crítico do calendário agrícola e pode comprometer operações no campo, pressionar custos e afetar a logística de escoamento da produção.
No cenário de fundo, a escalada das tensões no Oriente Médio levou o preço do petróleo a superar os US$ 100 o barril e elevou a defasagem do diesel vendido pela Petrobras no mercado interno a um recorde de 85%. Diante do temor de que a estatal não repasse os preços internacionais, agentes de mercado suspenderam importações, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Os estoques atuais garantem o abastecimento por cerca de 15 dias, de acordo com a entidade.
Para a Aprosoja Brasil, a restrição de oferta abre espaço para práticas abusivas. “A entidade alerta para o risco de oportunismo por parte de fornecedores que, diante da escassez, podem elevar preços de forma abusiva”, afirmou a associação.
A entidade destacou que esse movimento pressiona os custos de produção, encarece o transporte e pode resultar em inflação de alimentos. A Aprosoja Brasil também apontou a fragilidade estrutural do setor: apesar de o Brasil ser grande exportador de petróleo bruto, o mercado ainda depende de importações para suprir parte da demanda de diesel.
Pedido de aumentar mistura de biodiesel
Diante do cenário, a Aprosoja Brasil defendeu a aceleração da agenda de biocombustíveis. “É urgente avançar no aumento da mistura de biodiesel, reduzindo a dependência externa, e ampliar o uso do etanol na matriz energética, inclusive no transporte de cargas e em máquinas agrícolas”, afirmou.
A Aprosoja pediu ainda “ação imediata das autoridades para restabelecer o abastecimento, coibir práticas abusivas e fortalecer a segurança energética do agronegócio brasileiro”.
Como fica o preço do combustível?
As declarações de executivos da Petrobras na sexta-feira, 6, inclusive da presidente, Magda Chambriard, de que a política de não repassar ao mercado interno a volatilidade dos preços dos combustíveis praticados no exterior será mantida, tiraram a expectativa de um aumento no curto prazo pela estatal.
Na avaliação do analista de energia da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, apesar da grande defasagem do diesel (85%) e da gasolina (49%) nas refinarias da petroleira em relação ao mercado internacional, um possível reajuste do diesel virá quando a margem de venda do produto se agravar. Hoje, a margem de ganho no refino gira em torno de 8%, “mas deixa chegar a 1,2%”, destacou.
“Na sexta-feira eles (diretoria Petrobras) foram bem resolutos a manter a estratégia que está sendo feita. A princípio não será feita mudança no curto prazo. Vemos os maiores problemas no diesel, porque precisa de importação de 20%”, disse Arbetman ao Estadão/Broadcast.
Já o abastecimento de gasolina no País depende menos de importações, em torno de 5% a 10%. A defasagem do produto alcançou 49% nas refinarias da Petrobras e 46% se levadas em conta as refinarias privadas.
Arbetman ressaltou que, com o mercado mais apertado para o diesel, será difícil trazer produto importado, já que a janela está fechada para os importadores, e que a preocupação agora será observar se a Petrobras vai suprir o mercado a qualquer preço, perdendo margem de vendas.
“Isso traz, sim, preocupação para a gente, do ponto de vista da ação. Esse papel poderia estar valendo muito mais, e o que a gente vai ter de monitorar daqui para frente é o risco que tem ficado cada vez maior sobre a alavancagem que ela (Petrobras) tinha para não fazer o repasse.”
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







