O Brasil se prepara para mais uma campanha presidencial, e uma coisa é quase certa, ao menos na experiência deste colunista: não haverá nenhum debate sério sobre os problemas econômicos mais relevantes para o Brasil, com destaque para a questão fiscal.

Abordar seriamente a questão fiscal envolve tocar em assuntos tabu para os políticos, como a indexação ao salário mínimo de dezenas de milhões de benefícios previdenciários e sociais, acoplada à política de aumento real do mínimo. Ou a montanha de renúncia fiscal embutida em programas como o Simples e o MEI, para não falar da Zona Franca de Manaus.

Em tese, em uma democracia, a campanha eleitoral é o momento em que diferentes candidatos apresentam planos distintos para gerir o País e resolver seus problemas, e o eleitorado escolhe aquele que considera ter as melhores ideias. Na prática, o que se vê é um festival de acusações à honra do adversário e promessas de benesses sem fim para a população, sem discussão dos custos.

Essa fratura entre a visão dos economistas e dos políticos em sentido amplo (incluindo assessores, marqueteiros etc.) é discutida em instigante artigo de Alan Blinder, ex-vice-presidente do Fed, BC dos EUA e um dos mais brilhantes economista norte-americanos, publicado na edição de março da revista F&D (Finance & Development), do FMI.

Ele inicia afirmando que os economistas têm bem menos influência nas políticas públicas do que a maioria das pessoas julga. E isso deriva de diferenças intransponíveis entre economistas e políticos, que vêm de “diferentes civilizações”, definem o sucesso de forma diferente, têm horizontes de tempo dramaticamente diferentes (o dos políticos muito mais curto que o dos economistas) e possuem lógicas diferentes.

Blinder exemplifica com uma proposta teórica de uma isenção tributária de US$ 1 milhão que se aplicaria a 10 pessoas, mas que viria acompanhada de uma perda de US$ 1 para 20 milhões de pessoas. Um economista rejeitaria visceralmente essa proposta, mas os políticos provavelmente a adotariam. Afinal, a perda de US$ 1 é significante para uma pessoa, e os dez beneficiados com US$ 1 milhão serão gratos e podem recompensar os políticos que aprovaram a isenção com financiamento de campanha.

Esse exemplo não quer dizer que Blinder seja cínico e desiludido sobre esse problema. Ao contrário, ele considera possível aproximar um pouco mais a lógica da economia e a lógica da política.

Ele nota que, no sistema eleitoral americano, há uma janela de 18 meses, entre a posse do presidente e as eleições parlamentares no ano seguinte, em que boas propostas econômicas podem ser aprovadas e terem seus efeitos benéficos sentidos ainda no mesmo mandato presidencial. Assim, aproveitar bem essa janela em que podem convergir o tempo político e o econômico é crucial.

Em relação aos economistas, Blinder os aconselha a focar menos no que acontece no estado de equilíbrio, e mais no que ocorre na transição entre um equilíbrio e outro.

Ele exemplifica com o livre comércio, que, desde David Ricardo (economista clássico que viveu de 1772 a 1823), se sabe que produz um melhor equilíbrio para as sociedades como um todo. O problema é que a fase de ajuste ao livre-comércio pode ter perda de empregos, redução de renda para alguns, destruição de comunidades etc.

Blinder deixa claro que não está dizendo que os economistas devam defender o protecionismo, mas sim que “deveriam gastar muito mais tempo e esforço pensando em custos de transição possivelmente dolorosos, e em como mitigá-los, e pensar mais sobre o que acontece antes do tão alardeado estado de equilíbrio”.

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O segundo conselho de Blinder para os economistas é de pensar mais em justiça e um pouco menos em eficiência, que normalmente é a essência dos argumentos econômicos. Ele exemplifica com o sistema tributário, em relação ao qual os economistas construíram uma teoria de máxima eficiência, mas que é ignorada pelos políticos, cujo debate sobre o tema se concentra na justiça. “E a gente acaba com a confusão [tributária] que temos”, acrescenta o economista.

Na conclusão, Blinder defende que os economistas devem tentar “comer pelas bordas” no debate e implementação de políticas públicas. Essa ação deve se dar “abaixo do nível da manchete política”, e a ambição deve ser não a de definir as grandes linhas do projeto, mas sim a de fazer com que os detalhes de um complexo pacote de políticas públicas sejam menos ineficientes.

“Chame isso de teoria do terceiro ou quarto melhor. Talvez tenhamos que nos contentar com isso”, conclui Blinder.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/3/2026, quinta-feira (excepcionalmente, não foi publicada na quarta-feira).

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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