Em 2025, o governo lançou mão de expedientes de política parafiscal num total de R$ 220 bilhões, ou um impulso de 1,7% do PIB, segundo levantamento dos economistas Livio Ribeiro, Katherine Hennings e Matheus Rosa Ribeiro, da consultoria BRCG.

Segundo os pesquisadores, a grande maioria dessas medidas não impactou o resultado primário, estimulando a economia sem passar pelo orçamento, e sem estarem amarradas ao novo arcabouço fiscal. Eles notam que esse tido de ação do governo torna mais difícil medir o impulso fiscal, problema que se torna mais relevante num ano eleitoral.

Os economistas dividem as iniciativas parafiscais em três categorias. A primeira, as medidas de crédito subsidiado sem impacto primário, num total de R$ 113 bilhões em 2025, incluem Fundo Clima, uso do Superávit Financeiro e recursos do Fundo Social, Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura (FIIS), Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), Fundo Geral do Turismo (Fungetur), Plano Brasil Soberano (que usa recursos do Fundo Garantidor das Exportações, FGE, e do BNDES) e o Programa Reforma Casa Brasil.

A segunda categoria é a dos fundos privados, num total de R$ 113 bilhões, ou 0,89% do PIB. Nesse caso, trata-se de operações garantidas com o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e o Fundo de Garantia de Operações (FGO), que são fundos públicos federais para viabilizar acesso ao crédito por MEIs, autônomos e micro, pequenas e médias empresas. Como explicam os economistas da BRCG, esses fundos foram criados na pandemia e seus recursos deveriam ter retornado ao Tesouro como receita primária.

A terceira categoria, finalmente, é um coletânea de outros itens (no total de R$ 5,9 bilhões, ou 0,05% do PIB), reunindo a tarifa maior em Itaipu para financiar gastos socioambientais e o financiamento extraorçamentário do programa Luz para Todos.

Para 2026, a BRCG projeta mais pressão na demanda agregada, com medidas para aumentar a renda disponível das famílias com foco eleitoral.

Segundo os economistas, “a isenção do IR para rendimentos até R$ 5 mil, o mercado de trabalho apertado e o crescimento real da renda, especialmente na primeira metade do ano, darão a tônica do ano”. Eles citam que as iniciativas extraorçamentárias vão continuar, assim como a ampliação de crédito direcionado para empresas.

No cenário para este ano da BRCG, há continuidade do crescimento vigoroso da renda no mercado de trabalho, turbinado pela isenção do IR. Os economistas projetam que a massa salarial ampliada terá uma expansão real pouco acima de 4,7% em 2026, vinda de 6,7%, 7,7% e 5,2% em, respectivamente, 2023, 2024 e 2025.

A BRCG espera um ciclo de corte da Selic de 3 pontos porcentuais (pp) este ano, com a taxa básica indo para 12% em novembro. No entanto, os economistas consideram que essa estratégia “não conseguirá promover a convergência da inflação à meta e este ‘experimento monetário’ cobrará seu preço”.

Os modelos da consultoria apontam que a trajetória prevista da Selic fará com que a inflação acelere no horizonte relevante, levando a uma inflação projetada acima de 4,5% em 2027, em descumprimento do regime de metas. Esse cenário supõe uma taxa de câmbio de US$ 5,35 no final do ano, mas os economistas frisam que as projeções cambiais são anormalmente incertas.

Ribeiro, que é sócio-fundador da BRCG, surpreendeu-se hoje com a reação inicial do dólar de cair depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que boa parte da ofensiva tarifária de Donald Trump neste mandato era ilegal.

“Eu esperava que o dólar subisse, com esse sinal de que as instituições americanas estão funcionando”, disse Ribeiro. Fica claro, portanto, que projeções cambiais este ano são quase um exercício de alquimia, o que torna todos os cenários macroeconômicos mais incertos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/2/2026, sexta-feira.

 

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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