No mundo das telecomunicações, há um caso em que a criatura ficou maior que o criador. A Telefônica Brasil, dona da Vivo, ficou mais valiosa que a sua matriz e controladora, a espanhola Telefónica. A subsidiária brasileira atingiu um valor de mercado de R$ 137 bilhões, superando a matriz, avaliada em 21 bilhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 130 bilhões no câmbio atual.

As ações da Telefônica Brasil na bolsa de valores local, a B3, subiram 80% ao longo dos últimos 12 meses, chegando a R$ 42. Na contramão, os papéis da Telefónica recuaram 13% na Bolsa de Madrid, a BME, para 3,7 euros. O câmbio oscilou bastante nesse período, mas, atualmente, o euro vale R$ 6,10, praticamente a mesma coisa de um ano atrás. Então, a moeda influencia pouco nessa conta.

O que acontece na prática é que os investidores estão mais confiantes com os rumos dos negócios por aqui do que lá fora. A Telefônica no Brasil tornou-se uma grande pagadora de dividendos, ampliando a remuneração para seus acionistas. Já a matriz está endividada e cortou pela metade os dividendos previstos para este ano.

Competição é maior na Europa

O Grupo Telefónica é dono da marca Vivo (Brasil), Movistar (Espanha) e O2 (Europa). O grupo como um todo vem num ciclo de baixo crescimento, com dificuldade de obter retorno para os investimentos pesados na modernização das redes e para adoção de novas tecnologias. Na Europa, existem 38 operadoras para atender 600 milhões de pessoas. No Brasil, são só três diante de um público de 210 milhões, o que dá espaço para subir preços e avançar na margem de lucro.

A Telefónica defende, há anos, a consolidação do mercado europeu como forma de ganhar corpo, mas esse pleito esbarra na dificuldade de convencer os órgãos reguladores de vários países, sem perspectiva de uma solução para isso no curto prazo. Em novembro, o grupo anunciou um plano estratégico que prevê uma simplificação dos negócios, com economias de 3 bilhões de euros até 2030 via cortes de custos, ganhos de eficiência e venda de ativos. A prioridade é preservar o caixa. Também ficou definido que Espanha, Reino Unidos, Alemanha e Brasil serão os mercados prioritários, o que levou à venda das operações em outros países, como na América Latina.

Já no Brasil, a Vivo vem ampliando o faturamento com internet móvel e fixa, tem custos sob controle e evolução da margem. Além disso, reduziu os investimentos e obteve melhora do fluxo de caixa, reafirmando sua política de distribuição dos dividendos em um nível igual ou maior que o lucro líquido, o que agradou investidores.

Empresa se consolida como ‘joia da coroa’

“O mercado está precificando o futuro. A visão dos investidores em relação à Telefónica foi construída a partir de decisões como o corte de dividendos e a revisão de projeções, movimentos que chamam a atenção”, afirmou o sócio da consultoria empresarial Strategy Studio e diretor da Vórtx, Rodrigo Cerveira. “Enquanto isso, a Vivo se consolida como a joia da coroa, não apenas pelo seu desempenho, mas pela sua importância estratégica no segundo maior mercado do grupo”, emendou. Cerveira observou ainda que a subsidiária brasileira deixou de ser apenas uma fonte de receita para se tornar um pilar de estabilidade e crescimento, “uma âncora em meio à tempestade que a matriz enfrenta na Europa”.

Pela frente, os analistas do UBS apontam a falta de impulsos para os negócios da Telefónica na Europa, a não ser se surgir alguma opção envolvendo fusões e aquisições dos negócios. “Acreditamos que a apresentação da nova estratégia, em novembro, pode ser vista mais como um evento de ‘reset’ [reinicialização], sem catalisadores claros além de fusões e aquisições no futuro”, descreveu o analista Ondrej Cabejsek e seu time, em relatório recente do UBS. Eles citaram ainda que a Telefónica tem um endividamento alto (2,8 vezes o seu lucro operacional anual), atua num mercado desafiador e com limitações de crescimento, o que resulta em dividendos abaixo da média.

Desde o ano passado, corre nos bastidores a possibilidade de venda de uma parte da participação da matriz na subsidiária brasileira. Segundo a imprensa espanhola, a Telefónica analisa alternativas para levantar recursos que lhe permitam fazer aquisições e consolidar o mercado na Europa. Para isso, o grupo poderia realizar um aumento de capital e vender cerca de 20% do capital da Telefônica Brasil, do qual detém 70%, portanto, mantendo o controle. Questionado sobre o tema durante a revisão do plano estratégico em novembro, o presidente do grupo, Marc Murtra, não respondeu diretamente à questão, limitando-se a dizer que estuda sempre as alternativas de alocação de capital.

Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 02/03/2026, às 17:55

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Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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