O segredo de Anita Harley e a lição silenciosa das Casas Pernambucanas

Documentário sobre Anita Harley expõe desafios enfrentados por famílias bilionárias quando o alinhamento estratégico é deixado de lado, ameaçando o patrimônio. Crédito: Edição: Ariel Liborio

Eu não aprendi o que é política pública na faculdade. Eu aprendi dentro de um café, a Tabaco Café, tentando não fechar as portas. Foi ali, no limite entre pagar fornecedor e manter o negócio vivo, que minha mãe usava uma agenda onde anotava detalhadamente o que entrava e saía. E anos mais tarde eu entendi o impacto real de decisões tomadas muito longe da ponta. Para quem empreende, política pública não é teoria. É sobrevivência diária. É o que define se você continua aberto no mês seguinte. E essa é uma escola que nenhum MBA ensina.

Em 2006, quando o Simples Nacional entrou em vigor, a minha família não estava discutindo economia. A gente estava fazendo conta para ver se pagava imposto ou pagava fornecedor. E quem já empreende sabe: às vezes você não escolhe crescer. Você escolhe sobreviver. O empreendedor brasileiro vive, muitas vezes, no limite do caixa. Não existe margem para erro quando o sistema já nasce complexo.

O Simples trouxe algo que parece básico, mas que no Brasil não é: previsibilidade. Menos burocracia, menos imposto acumulado, menos confusão. Ele organizou o caos. Trouxe algum nível de racionalidade para quem vivia sufocado por um sistema feito para grandes empresas. Pela primeira vez, milhões de pequenos negócios conseguiram respirar. E isso muda tudo.

Hoje são mais de 20 milhões de empresas dentro do Simples. Isso representa praticamente 99% dos negócios formais do País. Não é um detalhe estatístico. É a base da economia brasileira. É o que sustenta emprego, renda e circulação de capital. Quando a gente fala de pequeno empreendedor, a gente está falando do Brasil real. Não é estatística. Isso é gente.

O Simples não nasceu de uma pessoa só. Foi uma construção institucional que envolveu várias lideranças, incluindo nomes como Guilherme Afif Domingos. Mas, honestamente, quem empreende quer ver mesmo o resultado na última linha. O que “coloca no bolso”, jargão muito comum no universo dos pequenos empreendedores. Quer saber se funciona. E funcionou. Eu vi isso acontecer dentro de casa, na prática, sem discurso.

Só que existe um problema que ninguém fala. O Simples resolve a entrada e, por isso, permitiu o crescimento de tantos microempreendimentos desde então. E quanto ao crescimento? Muita empresa não cresce porque tem medo de sair do regime. A partir daí será gestão, educação, políticas públicas? O Simples foi uma política que salvou milhões de empresas. A minha família é prova disso.

A economista ítalo-americana Mariana Mazzucato defende que o Estado deve atuar criando condições para que a base produtiva floresça. O Simples Nacional fez exatamente isso. Reduziu barreiras de entrada, estimulou formalização e permitiu que milhões de empreendedores deixassem a informalidade para construir algo sustentável.

O Brasil ainda carrega desafios estruturais, mas essa história ensina algo importante. Quando o país facilita a vida de quem empreende pequeno, ele não está ajudando um grupo específico. Está fortalecendo a própria economia. Porque, no fim, são esses negócios que seguram o país de pé quando tudo ao redor fica instável.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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