O mercado imobiliário de São Paulo vive um momento de alerta. Um levantamento recente aponta que a cada cinco vendas realizadas no médio e alto padrão, uma acaba em cancelamento de contrato.
Esse fenômeno, conhecido tecnicamente como distrato, reflete as dificuldades financeiras enfrentadas pela classe média em um cenário de juros altos e crédito restrito no país.
O volume de devoluções no primeiro semestre de 2026 atingiu a marca de 21% das vendas brutas, o maior patamar registrado nos últimos seis anos, conforme divulgado pelo Estadão.
Distratos de imóveis de alto padrão atingem marca histórica
O aumento dos distratos ilustra um cenário complexo para o consumidor, que enfrenta o encarecimento do crédito imobiliário. Diferente de outros setores, este segmento não possui subsídios do governo.
“Esse setor não tem subsídios estatais, como o Minha Casa, Minha Vida, ou cheques regionais, como o Pode Entrar”, analisa o economista Rodger Campos, do núcleo de habitação e regulação do Insper Cidades.
Além dos juros, o alto índice de endividamento das famílias e o aumento no custo de construção pesam na decisão. As incorporadoras também enfrentam atrasos em documentos essenciais para o financiamento.
O impacto nas grandes incorporadoras
Empresas como a Lavvi registraram alta de 82% nos distratos em comparação ao ano anterior. Segundo a companhia, os casos estão pulverizados e não se concentram em apenas um projeto específico do portfólio.
“Os casos registrados tiveram como principal razão o endividamento e dificuldades financeiras enfrentadas pelos clientes, refletindo o cenário macroeconômico desafiador”, afirmou a empresa em relatório aos investidores.
A Trisul também teve um salto de 29,4% nas devoluções. A empresa justifica que o movimento é reflexo do grande volume de entregas, acompanhado por uma maior restrição na concessão de novos financiamentos bancários.
Diferenças entre o mercado de luxo e o econômico
Enquanto o médio e o alto padrão sofrem com as desistências, o segmento econômico mantém certa estabilidade. A proporção de distratos nesse setor foi de apenas 10,5% no último semestre monitorado.
A principal dificuldade das famílias de baixa renda aparece na hora de comprovar rendimentos. Como o ciclo de pagamento é longo, a renda do comprador pode ficar sufocada antes da entrega das chaves do imóvel.
No entanto, empresas focadas em habitação popular, como a Plano&Plano e a Tenda, também observaram picos pontuais de cancelamentos, geralmente ligados ao rigor na análise de crédito e mudanças na renda informal.
Segurança jurídica e a Lei do Distrato
Apesar do cenário atual, especialistas lembram que a situação ainda está longe da crise de 2014. Naquela época, os cancelamentos passavam de 50%, gerando um colapso financeiro em diversas construtoras paulistas.
Desde 2018, a Lei do Distrato trouxe novas regras para as rescisões. “Em empreendimentos com patrimônio de afetação, a retenção pode chegar a até 50% dos valores pagos”, explica o advogado Roberto Amaral.
Essa regra de retenção agressiva serve como penalidade para a desistência do comprador. Contudo, se o cancelamento ocorrer por culpa da incorporadora, como atraso na obra, a restituição deve ser integral e imediata.
Atrasos nas obras e reclamações no Procon
O número de reclamações sobre atrasos na entrega de imóveis em São Paulo também cresceu. Em 2024, o Procon registrou 1.296 queixas, um aumento gradativo que vem sendo observado nos últimos três anos consecutivos.
Denise Garcia, uma compradora afetada, buscou a Justiça após o atraso de um prédio de 25 andares. A Justiça deu razão à consumidora, garantindo o direito de receber tudo o que pagou devido à falha da construtora.
Para Ana Maria Castelo, coordenadora da FGV IBRE, o cenário global de distratos está mais ligado à economia do que a problemas técnicos. “O fenômeno atual está muito conectado às dificuldades de crédito e renda do brasileiro”.
A fonte original desta notícia é o Estadão, disponível em: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







