A turbulência gerada pelo conflito no Oriente Médio reverberou globalmente, atingindo diretamente o mercado financeiro brasileiro. Uma janela de oportunidades para ofertas de ações, inicialmente prevista para o fim de março e abril, foi bruscamente adiada, remodelando os planos de diversas companhias.

A volatilidade repentina forçou as empresas e agentes do mercado a repensarem seus cronogramas. A expectativa agora é que o cenário se estabilize nos próximos meses, permitindo a retomada dessas operações entre maio e junho.

Este deslocamento, embora frustrante para alguns, é visto como uma pausa estratégica para garantir melhores condições. A guerra, por enquanto, não parece alterar a trajetória de queda da Selic no longo prazo, um fator crucial para a atratividade do mercado de capitais, conforme apuração da Coluna do Broadcast+, do Estadão.

Impacto Imediato: Empresas Recuam e Reprogramam Lançamentos

O impacto do conflito foi sentido de imediato, com algumas operações sendo revisadas. O Banco Pine e a rede de farmácias Pague Menos, por exemplo, captaram apenas metade do que planejavam em suas ofertas realizadas nos primeiros dias do confronto, um claro sinal de cautela no mercado.

A Riachuelo também reagiu prontamente, suspendendo os estudos para uma oferta secundária que prometia movimentar cerca de R$ 500 milhões. No entanto, fontes indicam que essa oferta deve ser retomada, mirando a nova janela de maio a junho, aproveitando um ambiente mais propício.

O setor de educação também foi afetado. A Vitru, que já avaliava a possibilidade de um follow-on de R$ 200 milhões, agora conversa com investidores para medir o apetite do mercado antes de um possível lançamento no mesmo período. Outras ofertas subsequentes de ações, ainda não públicas, também aguardam um momento mais claro para serem lançadas.

Foco na Projeção de Juros de Longo Prazo

Apesar da incerteza de curto prazo, a visão dos especialistas foca no horizonte estendido. “A curva do juro continua descendente e o Banco Central está preocupado com a taxa em 18 meses”, afirmou um executivo de banco de investimento local. Ele complementa que, embora o corte na Selic esperado para 2026 tenha caído de 300 para 150 pontos-base, a projeção para 2027 se manteve estável, sendo este o principal balizador para os agentes.

Esse cenário de estabilidade a longo prazo é o que mantém as esperanças para as ofertas iniciais (IPOs), que também devem ocorrer no mesmo período. Um dos eventos mais aguardados é a privatização da Companhia de Saneamento do Estado de Minas Gerais (Copasa) por meio de um follow-on, prometendo ser um catalisador para o ciclo de grandes ofertas de ações.

O processo da Copasa deve pavimentar o caminho para aberturas de capital de outras grandes do saneamento, como a Aegea e a BRK. Há, inclusive, a possibilidade de a Aegea atuar como investidora estratégica na privatização da Copasa, o que poderia postergar seu próprio IPO. A BRK, por sua vez, tende a aguardar o sucesso dessas operações para lançar sua oferta, buscando um comparativo sólido para atrair investidores.

Compass: Disputa Acionária Atrasa Lançamento Bilionário

Enquanto o mercado se realinha, a Compass, subsidiária de distribuição de gás natural do Grupo Cosan, enfrenta desafios internos. Com a ambição de levantar R$ 5 bilhões, a empresa almejava protagonizar a reabertura do mercado de IPOs, mas seu cronograma foi postergado.

O atraso deve-se a uma disputa entre acionistas sobre o destino dos recursos da captação, envolvendo mudanças no veículo de investimento controlador da Compass, que tem Cosan, BTG Pactual e Bradesco como acionistas. Há a possibilidade de o IPO da Compass escorregar para julho, conforme um interlocutor com conhecimento do assunto.

Cenário Internacional: O Efeito Cascata e a Expectativa Pela SpaceX

A cautela não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, o maior mercado do mundo para IPOs, houve uma desaceleração, sem fechamentos de operações na última semana, o que naturalmente torna os investidores mais reticentes em outros mercados globais.

“A volatilidade interrompeu novamente a recuperação dos IPOs nos EUA”, afirmaram estrategistas da Renaissance Capital. Eles preveem que, com o retorno da estabilidade, a janela para ofertas de ações deve reabrir rapidamente. A maior expectativa americana é pelo IPO da SpaceX, de Elon Musk, que pode levantar impressionantes US$ 75 bilhões, potencialmente o maior da história, aguardando o melhor momento.

Analistas da consultoria internacional TS Lombard alertam que a duração do conflito é essencial para determinar o impacto econômico global, inclusive com risco de recessão nos EUA se a situação se prolongar, reforçando a necessidade de um ambiente mais previsível para a retomada das ofertas de ações em todo o mundo.

Esta notícia foi publicada originalmente na Coluna do Broadcast+, do Estadão, em 31/03/2026. Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.

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