Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo Master

Sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli.

O Coaf identificou irregularidades na venda de ativos do Banco Master para o BRB entre 2024 e 2025, envolvendo créditos de empresas de baixa renda. A operação, que somou R$ 16,4 bilhões, incluiu fundos suspeitos ligados a Daniel Vorcaro. O BRB, que enfrentou um ‘buraco’ de R$ 8 bilhões, adotou medidas de mitigação. As carteiras substituídas também apresentaram problemas. Vorcaro e o Master são investigados por fraudes financeiras. A defesa de Vorcaro criticou vazamentos ilegais de informações sigilosas.

BRASÍLIA — O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou irregularidades na venda de ativos do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB) entre 2024 e 2025, incluindo a oferta de créditos de empresas abertas em nome de pessoas de baixa renda e que receberam auxílio emergencial.

Conforme documentos enviados à CPI do Crime Organizado a que o Estadão teve acesso, o órgão identificou suspeitas no aumento de capital do BRB, com a participação de fundos ligados ao banco de Daniel Vorcaro, na venda de carteiras para o banco estatal e na substituição dessas carteiras, que somaram R$ 16,4 bilhões no período.

A defesa de Vorcaro disse que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso” (leia mais abaixo). O BRB foi procurado e o espaço segue aberto.

O Master e o BRB são investigados por negociarem créditos podres e cometerem fraudes financeiras entre 2024 e 2025. Em março do ano passado, o BRB fez uma oferta para comprar o banco de Daniel Vorcaro, mas a operação foi negada pelo Banco Central em setembro.

O Master foi liquidado, o banqueiro foi preso e executivos do Banco de Brasília foram afastados. A atual diretoria do BRB calcula que as fraudes abriram um “buraco” de pelo menos R$ 8 bilhões no banco.

De maio a julho de 2024, o BRB registrou um aumento de capital sustentado por grandes aportes de quatro entidades, dentre as quais três fundos suspeitos de irregularidades, todos relacionados ao Master, segundo o Coaf. Foi por meio desses fundos que Daniel Vorcaro e gestores da Reag Investimentos, também investigada no caso, se tornaram acionistas do Banco de Brasília.

A partir do terceiro trimestre de 2024, o BRB passou a adquirir carteiras de crédito consignado e cartão consignado do Master que somaram R$ 5,99 bilhões ao longo do ano. No acompanhamento das carteiras, foram identificadas operações que não tiveram origem diretamente no Banco Master, mas na empresa Tirreno. O Coaf apontou riscos e preocupações, pois a Tirreno não é uma instituição financeira e nem é regulada pelo Banco Central.

Diante dos riscos identificados, o BRB adotou medidas de mitigação e negociou garantias adicionais no valor de R$ 16,1 bilhões com o Master, sendo R$ 9,3 bilhões em direitos creditórios (ativos com valores a receber) e R$ 6,8 bilhões em recursos em conta no próprio BRB. Além disso, um aditivo contratual formalizou uma nova garantia adicional de R$ 6,2 bilhões, conforme os relatórios.

Os dois bancos começaram então a substituir as carteiras “podres” por outros ativos do Master, selecionados pelo BRB. As carteiras propostas na troca somaram R$ 16,4 bilhões, mas esses ativos também apresentaram problemas, segundo as informações do Coaf. Três propostas tinham como participantes pessoas de baixa renda e beneficiárias do auxílio emergencial na pandemia de covid-19.

As carteiras substitutas foram negociadas entre setembro de 2024 até novembro de 2025, data de liquidação do Master. Uma das carteiras, de R$ 213 milhões, era oriunda de uma operação de direito creditório entre o Banco Master e a empresa Gran Viver Urbanismo S.A. Os dois sócios da empresa foram beneficiários do auxílio emergencial, segundo o Coaf. A reportagem procurou a Gran Viver Urbanismo S.A e o espaço segue aberto.

Os três fundos ligados ao Master que viraram cotistas do BRB apresentaram suspeitas, de acordo com o Coaf:

  • foram criados durante o período de aumento de capital do BRB e compraram ações especificamente do Banco de Brasília, o que indica que podem ter sido abertos com esse objetivo;
  • realizaram aportes acima de seus patrimônios anteriores;
  • foram em grande parte destinados a comprar cotas do BRB, o que não condiz com o objetivo de fundos de investimentos em participações multiestratégia;
  • possuíam apenas um cotista, o que pode ter sido usado para esconder o verdadeiro beneficiário final.

A defesa de Vorcaro disse em nota que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”.

“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, diz o texto.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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