O Banco Central fez o que se esperava. Cortou os juros, mas na menor dose possível, para incorporar as incertezas provocadas pela guerra americana no Irã. Manter a Selic em 15% ao ano seria visto como um exagero e levaria a ruídos políticos que poderiam afetar a própria política monetária em ano de eleição. E cortar em meio ponto demonstraria incoerência com a forte mudança de cenário da economia internacional desde a reunião de janeiro.

A decisão desta semana aconteceu em meio à liquidação de mais um banco do conglomerado Master, e também sob as incertezas de um vai e vem de decisões judiciais envolvendo o Banco de Brasília (BRB), que terminaram com o cancelamento da Assembleia Geral que iria deliberar sobre o aporte de capital no banco.

Mas os diretores do BC precisaram se trancar na sede do Banco Central para estudar planilhas, refazer projeções e tentar incorporar no cenário variáveis imprevisíveis como o período de prolongação da guerra, o risco de escalada do conflito e os seus impactos sobre produtos que são cruciais para a inflação mundial e brasileira, como o preço petróleo e a cotação do dólar.

O comunicado da decisão pregou cautela e deu poucas pistas sobre o que vem pela frente. Como não houve o chamado guidance, o BC pode tanto manter a Selic na reunião de abril, quanto continuar com os cortes. A menos que o conflito escale e o petróleo saia completamente de controle, a tendência é de novas reduções de 0,25 ponto, porque iniciar um ciclo de cortes de juros com uma única redução faria pouco ou nenhum sentido.

O fato é que o cenário mudou bruscamente, a ponto de pegar os próprios investidores e gestores de fundos multimercados no contrapé, o que levou a um socorro do Tesouro com a recompra de mais de R$ 40 bilhões em títulos pré-fixados e indexados à inflação. Quem apostou na queda forte da Selic não contava com a paralisação do tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz, que levou o barril do petróleo acima dos US$ 100.

O BC afirmou que, com a guerra, “as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária”. Isso quer dizer que, se o conflito acabar rapidamente, essa piora pode ser revertida, e os cortes podem se acelerar à frente.

Mais importante do que o tamanho do corte de hoje é a extensão do ciclo, ou seja, qual será o patamar final da Selic. Neste momento, essa previsão é impossível até para o Banco Central: está condicionada ao tamanho da loucura de Trump no Oriente Médio.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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