A necessidade de investimentos para enfrentar a crise climática nunca foi tão alta, mas os recursos públicos globais estão cada vez mais escassos e disputados por outras prioridades governamentais.
Diante de restrições fiscais e novos conflitos geopolíticos, a filantropia surge como uma peça fundamental para preencher lacunas deixadas pelos Estados e pela cooperação internacional tradicional.
Uma nova abordagem propõe que o grande objetivo desses recursos privados deve ser financiar o aprendizado e reduzir riscos, tornando os projetos autossuficientes, conforme divulgado pelo Estadão.
O impacto da retração dos investimentos públicos
Em 2025, a ajuda oficial ao desenvolvimento dos países da OCDE sofreu a maior retração anual já registrada, com queda de 23,3%. Para 2026, a projeção é de nova redução, atingindo o menor nível desde 2014.
Embora a filantropia climática tenha dobrado seus recursos desde 2020, ela representa apenas 2,1% do investimento filantrópico mundial. Esse valor é insuficiente para financiar sozinho a transição global necessária.
Por isso, é fundamental entender onde esse capital pode gerar maior impacto. A resposta pode estar no conceito de learning by doing, ou aprender fazendo, onde o conhecimento nasce durante a prática econômica.
A importância do aprender fazendo
Quem investe primeiro em novas tecnologias climáticas acaba pagando pelo aprendizado de todo o setor. Esse pioneiro reduz custos e melhora processos, mas nem sempre captura sozinho todos os benefícios financeiros gerados.
Como o primeiro investimento gera um retorno social maior do que o lucro privado imediato, os mercados tendem a investir menos do que o necessário. É aqui que a filantropia deve atuar de forma estratégica.
Ao financiar os primeiros testes e identificar gargalos, o capital filantrópico constrói o conhecimento que servirá de base para futuros investidores, reduzindo as incertezas que afastam o mercado comercial tradicional.
Criando mercados para a sociobiodiversidade
Um exemplo prático ocorre no fortalecimento da cadeia do cacau no sul da Bahia. Não basta apenas melhorar a produção, é preciso olhar para todo o sistema, como assistência técnica, crédito e organizações locais.
Parcerias com o setor privado, como a realizada com o Grupo Trigo, buscam aproximar quem produz de quem consome. A ideia é inserir ingredientes da sociobiodiversidade brasileira em grandes redes de restaurantes.
Nesse cenário, a filantropia funciona como um indutor. Ela cria pontes e testa caminhos comerciais para que produtos sustentáveis ganhem escala e se tornem viáveis para o mercado sem a necessidade de apoio constante.
Reduzindo riscos para atrair o capital comercial
O mesmo raciocínio se aplica à restauração florestal. O Brasil precisa recuperar milhões de hectares, uma tarefa que exige volumes de capital que apenas o sistema financeiro comercial e os bancos possuem.
Recursos filantrópicos podem responder perguntas cruciais: quais modelos geram lucro? Como estruturar garantias inovadoras? Os primeiros projetos são vitais para provar a viabilidade econômica e diminuir o risco percebido.
O objetivo final é que o décimo projeto dependa menos de doações do que o primeiro. Quando o capital comercial consegue entrar sozinho, a filantropia cumpre seu papel de desbravar territórios financeiros incertos.
O sucesso como sinônimo de autonomia
A filantropia atua no espaço de incerteza entre o governo e o mercado. Seu trabalho é reunir produtores, investidores e pesquisadores para transformar ideias inovadoras em soluções que consigam ganhar escala real.
O verdadeiro sucesso de uma iniciativa filantrópica deve ser tornar-se desnecessária. Se um projeto permanece dependente de doações para sempre, ele não alterou as condições econômicas que causaram o problema original.
Financiar o aprendizado é a chave para a transição climática. Alguém precisa estar disposto a pagar pelos primeiros erros e acertos para que o mundo encontre o caminho da sustentabilidade de forma autônoma.
A fonte original é a Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.







