Diretor do BC à PF diz que BRB deveria ter identificado fraudes nas carteiras do Master

Em audiência no STF em 30 de dezembro, Ailton de Aquino diz que governança do banco tinha como ter detectado problemas. Crédito: Imagens: STF

BRASÍLIA — Um ano após tentar comprar o Banco Master, no dia 28 de março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) luta pela própria sobrevivência. Se antes a estratégia era expandir nacionalmente, agora o banco estatal se vê diante do risco concreto de ser vendido ou liquidado, caso não seja socorrido pelo governo do Distrito Federal — que precisa aportar recursos para cobrir o rombo deixado pelas negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A estratégia do novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, é só divulgar o tamanho exato do problema quando o governo do DF viabilizar a operação para capitalizar o banco. Assim, as duas informações seriam publicadas ao mesmo tempo: o tamanho do prejuízo, mas o seu aporte correspondente.

O Banco de Brasília cancelou uma assembleia de acionistas que discutiria o plano de socorro no último dia 18. E também não deve divulgar o balanço financeiro de 2025, pois pediu ao Banco Central um adiamento do prazo.

O banco enfrenta o impasse em meio ao calendário eleitoral e à possível delação do banqueiro Daniel Vorcaro. O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), anunciou que deixará o cargo na próxima segunda-feira, 30, para concorrer ao Senado em outubro. O emedebista enfrenta um desgaste político com o caso.

Além de ter patrocinado a tentativa de compra do Master, o escritório de advocacia do governador vendeu pelo menos R$ 85 milhões em honorários para fundos ligados a Daniel Vorcaro e à Reag, também investigada no escândalo. Procurado, o governo do DF não se manifestou.

Vorcaro começou a negociar uma delação premiada que, se concretizada, pode trazer novos elementos sobre quem participou das operações fraudulentas.

Em entrevista coletiva nesta quinta-feira, 26, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, elogiou a nova gestão do Banco de Brasília, mas enfatizou que o problema só será resolvido com o aporte do governo do DF.

“Tenho assistido o empenho da gestão atual do BRB para tentar equacionar uma solução, que é uma questão que está menos na gestão efetivamente do BRB, porque é uma questão de patrimônio, é uma questão que envolve uma solução fornecida pelo acionista controlador”, afirmou Galípolo.

Ibaneis aprovou um projeto de lei para fazer um aporte no BRB com o uso de nove imóveis públicos do Distrito Federal que podem ser vendidos, usados como garantia em um empréstimo ou estruturados em um fundo imobiliário.

A lei aprovada foi judicializada. Diante dos obstáculos para colocar o fundo em pé, o plano A do Banco de Brasília virou buscar um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a outras instituições financeiras —solução que ainda não se concretizou.

Relação Master e BRB começou em 2024

A relação do BRB com o Master começou em maio de 2024, com um aumento de capital por parte do banco público e que acabou sendo acompanhado por fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.

Assim, Vorcaro se tornou acionista do BRB, ao mesmo tempo que reforçava a estrutura de capital do Banco de Brasília, segundo as investigações.

Com esse reforço, o BRB passou a comprar carteiras de crédito justamente do Master, a partir de julho, segundo relatório enviado pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União (TCU). Até dezembro daquele ano, as estimativas são de que R$ 4,5 bilhões de carteiras próprias do Master tenham sido cedidas ao BRB.

A partir de janeiro de 2025, há uma mudança na operação. O Master passa a vender carteiras originadas por uma empresa chamada Tirreno, que suspeita pela Polícia Federal de ser de fachada. Em poucos meses, o BRB compra mais R$ 12,2 bilhões em créditos do Master, que depois a fiscalização do Banco Central identificou que eram falsas.

Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo Master

Sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli.

O BRB fez uma oferta para comprar 58% do capital total do Master em 28 de março de 2025, em uma operação estimada em R$ 2 bilhões. O Banco Central, contudo, reprovou o negócio em setembro, depois de se debruçar sobre o balanço dos dois bancos e encontrar indícios de crimes financeiros, com a descoberta das carteiras podres vendidas ao BRB pelo Master.

Além disso, foi identificado risco de que o BRB pudesse ser obrigado a responder por passivos de mais de R$ 50 bilhões do Master, caso o negócio fosse concluído. “Isso significa que o BRB, ao adquirir o Banco Master, poderia ser posteriormente acionado judicialmente para responder por passivos superiores a R$ 50 bilhões de entidades excluídas da transação”, diz relatório do TCU sobre o trabalho do BC.

O governo do Distrito Federal insistiu na negociação e, como revelou o Estadão, recorreu três vezes ao TCU na tentativa de pressionar o Banco Central a aprovar a compra do Master pelo BRB e reverter a decisão que barrou a negociação.

Agora, a própria gestão Ibaneis diz que há risco de liquidação ou intervenção federal no Banco de Brasília se não houver o aporte. O Master foi liquidado em novembro, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez. O banqueiro voltou ser preso no último dia 4 de março e começou a negociar uma delação premiada.

Venda do Master para o BRB era socorro contábil, financeiro e político, diz perito

Segundo o auditor e perito contábil Marcelo Alcides Gomes, as demonstrações financeiras dos dois bancos já indicavam problemas quando o negócio foi fechado, no início de 2025. Os balanços do ano anterior trouxeram achados de auditoria que demonstravam ressalvas nos fundos comprados pelo BRB e pelo Master.

“Os auditores deixaram aqueles ‘ovos de Páscoa’ que só na linguagem do auditor para entender o que estava acontecendo. Dava para perceber que alguma coisa estava com problema na avaliação dos fundos que o Master e o BRB adquiriram”, afirma o especialista. Para ele, o Master tentou se salvar por meio do Banco de Brasília. “Era um socorro contábil, financeiro e político.”

Agora, é inevitável que o BRB receba um aporte do controlador para continuar funcionando. Mas o impasse está, primeiro, em descobrir o tamanho do rombo e identificar os responsáveis.

“Enquanto houver a suspeita de fraude, é preciso fazer uma investigação interna para apurar se houve fraude, quem são os responsáveis e saber o tamanho da fraude para fazer o ajuste no balanço. Até lá, o auditor não assina. Não é só o tamanho da fraude, é apurar quem são os responsáveis.”

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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