Em março celebramos dois dias importantes para o agronegócio — Dia da Agricultura (20 de março) e Dia Mundial da Água (22 de março). Mais do que celebrar conquistas, essas datas são momento oportuno para fazer uma reflexão honesta sobre os caminhos que estamos trilhando — e, principalmente, sobre os obstáculos que ainda insistem em limitar o pleno potencial do campo brasileiro.

Do ponto de vista de quem está na lida diária, produzindo, investindo e assumindo riscos, o cenário é claro: avançamos muito dentro da porteira, mas seguimos travados fora dela.

A agricultura brasileira é, hoje, uma das mais tecnológicas do mundo. Uma simples semente de soja carrega anos de pesquisa científica, inovação genética e desenvolvimento tecnológico. Mesmo plantas consideradas invasoras, como o joio, já são objeto de estudos avançados.

O campo deixou de ser apenas força física e passou a ser inteligência aplicada, gestão de dados e precisão. Ainda assim, o setor não recebe a devida atenção quando o assunto é política pública voltada à alta tecnologia.

Essa desconexão se reflete, por exemplo, na ausência de um Plano Safra de longo prazo. O modelo atual, um remendo renovado ano a ano, não oferece previsibilidade para o produtor rural, que precisa planejar investimentos de médio e longo prazos.

Sem segurança, o risco aumenta — e o custo também. Soma-se a isso a necessidade urgente de taxas de juros mais condizentes com a realidade da atividade agropecuária. Produzir alimentos não pode ser tratado como uma operação financeira de alto risco; a segurança alimentar é uma atividade estratégica para o País e para o mundo.

Outro gargalo histórico é a infraestrutura. A dependência do transporte rodoviário encarece o escoamento e reduz a nossa competitividade. Investir em ferrovias e em estrutura adequada de armazenamento é uma necessidade para que o produtor não seja obrigado a comercializar sua produção em momentos desfavoráveis.

E se os desafios estruturais já não fossem suficientes, enfrentamos os impactos das mudanças climáticas. No entanto, o Brasil ainda carece de um sistema de seguro rural robusto.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde quase 90% da produção é coberta, no Brasil esse índice mal chega a 10%. O resultado é que, mesmo com tecnologia de ponta, a margem de lucratividade encolhe e, muitas vezes, torna-se negativa.

Essa visão de futuro e resiliência passa, obrigatoriamente, pelo cuidado com nossos recursos naturais. Às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, precisamos reforçar que a conexão entre a agricultura e a preservação hídrica é vital e indissociável.

O produtor rural é, por essência, um dos maiores preservadores de mananciais do País. Ao proteger nascentes e matas ciliares em suas propriedades, ele garante o ciclo que sustenta não apenas a produção de alimentos, mas a vida em todo o planeta. Para quem vive da terra, a água não é apenas um insumo, é o patrimônio que assegura a continuidade de gerações.

É fundamental reconhecer que, sem instrumentos eficazes de proteção, o produtor rural tem arcado sozinho com riscos cada vez maiores, o que resulta no aumento do endividamento no campo.

Diante desse cenário, torna-se urgente antecipar o Plano Safra 2026/2027, incorporando medidas que enfrentem essa realidade, com soluções que garantam segurança financeira, previsibilidade e condições reais de sustentabilidade para quem produz.

Nessas datas importantes, o que os mais de 15 milhões de produtores rurais pedem não é privilégio, mas coerência. É o reconhecimento de que o agro é parte essencial da economia brasileira.

É necessário construir um verdadeiro Projeto Brasil para o campo, com planejamento, crédito adequado e investimentos consistentes. O produtor já faz a sua parte, garantindo a sustentabilidade e cuidando da água e da terra como nenhum outro.

O Brasil, agora, precisa fazer a sua. O futuro da agricultura depende das decisões que tomarmos agora.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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