Rússia e China vão entrar na guerra do Irã? Como os países foram atingidos pelas ações dos EUA?

Apesar das relações políticas e econômicas com Teerã, tanto Moscou quanto Pequim têm oferecido, até agora, apenas apoio retórico à República Islâmica. Crédito: Imagens: AFP

HONG KONG – Com o preço do petróleo disparando para US$ 100 o barril e os países se esforçando para limitar as consequências da repentina falta de combustível no Oriente Médio, a China tem duas vantagens significativas sobre seus rivais geopolíticos.

Muitos de seus carros novos funcionam com eletricidade. E essa eletricidade é gerada principalmente por fontes internas.

A China investiu décadas e centenas de bilhões de dólares em veículos elétricos e energia renovável, uma estratégia de longo prazo que está dando frutos enquanto outros países lidam com as turbulências no mercado de petróleo. Pequim tem buscado reduzir sua dependência da energia estrangeira expandindo a oferta interna e acelerando o desenvolvimento de fontes alternativas de energia, incluindo solar, eólica, hidrelétrica e nuclear.

A demanda chinesa por petróleo refinado, gasolina e diesel caiu no ano passado, registrando o segundo declínio anual consecutivo. Isso levou especialistas a preverem que o consumo de petróleo e gás da China atingiu seu pico e que o país está menos vulnerável a interrupções no fornecimento de energia do que antes.

“A China tem uma certa margem de segurança em comparação com outros países”, disse Michal Meidan, chefe de pesquisa de energia da China no Instituto de Estudos de Energia de Oxford, um grupo de pesquisa independente. “As interrupções no fornecimento e os aumentos de preços não impactam significativamente o funcionamento de sua economia.”

Os preços do petróleo voltaram a ultrapassar os US$ 100, em meio à crescente preocupação de que os combates em curso interrompam o tráfego no Estreito de Ormuz, a estreita passagem entre o Irã e Omã, rota comercial vital para petróleo e gás natural. Líderes mundiais concordaram em liberar uma quantidade recorde de petróleo de suas reservas de emergência, e o presidente Donald Trump recuou nas sanções a algumas exportações russas, mas os temores de escassez de oferta persistiram, à medida que um número crescente de navios petroleiros e de carga se tornaram alvos.

Embora a China importe metade de seu petróleo bruto transportado por via marítima do Oriente Médio, Pequim tem margem de manobra suficiente para evitar os tipos de medidas extremas que alguns países asiáticos já adotaram, como a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana ou o fechamento de universidades para conservar energia.

Nos últimos anos, a China fez a transição do maior mercado automobilístico do mundo, de carros movidos a gasolina para veículos elétricos, mais rapidamente do que qualquer outra grande economia global. A China vendeu mais veículos elétricos em 2025 do que o resto do mundo junto.

Metade dos carros novos vendidos na China são veículos elétricos ou híbridos, que funcionam tanto com eletricidade quanto com gasolina. Cerca de um terço de todos os caminhões pesados novos são puramente elétricos, de acordo com os dados mais recentes disponíveis da Associação Chinesa de Veículos de Passageiros.

Em comparação, nos Estados Unidos, cerca de 22% dos carros novos vendidos em 2025 eram veículos híbridos ou elétricos, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA. As vendas de veículos elétricos despencaram nos últimos meses do ano, após o fim de um substancial subsídio fiscal federal.

Há uma década, a posição de liderança da China em carros elétricos poderia parecer improvável. As vendas de carros movidos a gasolina estavam em alta e a demanda por gasolina também. Mas isso mudou depois que o governo investiu US$ 300 bilhões em uma campanha para criar gigantes nacionais de alta tecnologia e reduzir sua dependência externa.

De 2016 a 2022, o governo chinês concedeu mais de US$ 5 bilhões em subsídios diretos a montadoras para impulsionar o desenvolvimento de veículos elétricos, segundo dados governamentais. A BYD recebeu a maior parte e, no ano passado, ultrapassou a Tesla como a maior vendedora de veículos elétricos do mundo.

Para Pequim, essa mudança para veículos elétricos e energias renováveis está enraizada em uma antiga preocupação em solucionar as vulnerabilidades energéticas da China.

Na década de 2000, o líder chinês Hu Jintao estava preocupado com outra estreita passagem por onde o petróleo chegava à China: o Estreito de Malaca. Na época, essa via navegável que separava a Indonésia e a Malásia de Singapura era responsável por 25% do comércio global.

“Não é exagero dizer que quem controla o Estreito de Malaca também terá o controle da rota energética da China”, escreveu um jornal estatal chinês em 2004.

Na época, a China respondeu criando instalações de armazenamento emergencial de petróleo e investindo em energias renováveis. Hoje, entre as principais economias asiáticas, a China é a menos afetada pelas interrupções no fornecimento de petróleo e gás do Oriente Médio.

A China é a maior compradora mundial de petróleo e gás e depende do carvão para pouco mais da metade de suas necessidades energéticas. Petróleo e gás natural representam cerca de um quarto. O restante é proveniente de fontes nucleares e renováveis, como solar, eólica e hidrelétrica.

“O incentivo da China às energias renováveis não é motivado pelo meio ambiente, mas pela necessidade de segurança energética e também como um motor de crescimento”, disse Mathias Larsen, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Grantham, da London School of Economics. “A segurança energética sempre foi uma prioridade; sempre foi um fator-chave.”

Embora três quartos do seu petróleo sejam importados, a China vem acumulando grandes reservas estratégicas. Nos dois primeiros meses do ano, a China importou 16% mais petróleo do que no mesmo período do ano anterior.

Dois dias após os Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês, comemorou o progresso da China.

“Meu país construiu o maior sistema de energia renovável do mundo”, estampou o jornal na primeira página. O artigo destacava que a China possuía a maior rede de recarga para veículos elétricos do mundo.

Mas, mesmo com esses esforços, a população chinesa não está totalmente imune à alta dos preços do petróleo.

Muitas casas chinesas ainda dependem de gás importado para aquecimento. As fábricas chinesas precisam de produtos petroquímicos para produzir matérias-primas essenciais para as cadeias de suprimentos globais, como poliéster para vestuário e borracha para pneus.

Na segunda-feira, 9, enquanto os preços do petróleo disparavam para perto de US$ 120, proprietários de carros com motor de combustão interna formavam longas filas em postos de gasolina em dezenas de cidades chinesas. A principal agência de planejamento econômico da China aumentou o preço do petróleo no varejo em 5%, o maior aumento em quatro anos, elevando o preço médio nos postos de gasolina para US$ 4,20 por galão (3,78 litros).

Pouco depois da medida, uma mulher na província costeira chinesa de Zhejiang expressou sua frustração no RedNote, um aplicativo de mídia social chinês, postando uma foto de seu Audi A5 branco sendo abastecido em um posto de gasolina. “Toda vez que piso no acelerador, sinto como se meu coração estivesse sangrando”, escreveu.

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Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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