Um estudo do FMI, liderado por Shuvam Das e outros economistas, revela que o multiplicador fiscal médio global é 0,7, indicando que um aumento de 1% no gasto público gera 0,7% de crescimento no PIB em dois anos. Utilizando IA, o estudo analisou dados de 64 países de 1952 a 2023, destacando a importância do contexto econômico-político. O estudo alerta que a política fiscal deve ser precisa, especialmente com dívidas públicas em alta. Fernando Dantas comenta que impulsos fiscais devem evitar o populismo político.
O multiplicador fiscal médio global (baseado em dados de 64 países de 1952 a 2023) é de 0,7. Isso significa que, em termos gerais, um aumento de 1% no gasto público gera um crescimento de 0,7% no PIB em um horizonte de dois anos. Em economias emergentes, o multiplicador mediano é um pouco maior, em torno de 0,8, mas com muita dispersão dependendo do país e de sua conjuntura econômico-política.
Esses resultados estão em novo estudo do FMI que tem características revolucionárias em termos de metodologia, porque empregou a inteligência artificial para montar e manipular o gigantescobanco de dados que deu base aos resultados. Os autores do trabalho são os economistas Shuvam Das, Davide Furceri, Nikhil Patel e Adrian Peralta-Alva.
Intitulado (traduzindo do inglês) “IA Encontra a Política Fiscal”, o estudo apresenta o que pode ser considerado o primeiro banco de dados narrativo global e trimestral sobre ações de gastos públicos discricionários. O trabalho usa o modelo de linguagem GPT-4.1 para ler e classificar milhares de relatórios econômicos históricos.
Existe uma grande dificuldade nesse tipo de estudo relacionada à causalidade, que é distinguir os casos em que a mudança do gasto público é exógena ou é endógena. Ela só é considerada exógena se não estiver relacionada a reações de curto prazo a acontecimentos macroeconômicos, como combater uma recessão, reduzir o desemprego ou, ao contrário, esfriar a economia ou ajudar a controlar a inflação; ou ainda ações ligadas a movimentos dos juros e do câmbio, ou estresse financeiro. Em todos esses casos, a mudança da política fiscal é endógena.
Para fazer essa diferenciação, os economistas dependem do “método narrativo”, que envolve a leitura exaustiva de documentos oficiais para entender a motivação real por trás de cada centavo gasto. No passado, isso exigia anos de trabalho humano. Agora, a IA faz o trabalho pesado com uma precisão que atinge 93% em comparação com codificadores especialistas.
Os resultados do trabalho são baseados apenas nos choques fiscais exógenos, para garantir que o cálculo do multiplicador fiscal não seja contaminado pela situação econômica do momento, permitindo identificar o efeito causal puro do gasto público sobre o PIB.
O estudo identificou 8.636 casos de choques fiscais discricionários exógenos, sendo 50,6% expansionistas e 49,4% contracionistas. Deste conjunto de ações fiscais, os aumentos de gastos são majoritariamente impulsionados por investimentos em infraestrutura e capital (quase 60% dos casos), enquanto as reduções são quase sempre motivadas por políticas de consolidação fiscal e redução do déficit público.
Os economistas alertam que o multiplicador médio global de 0,7 não deve ser visto como uma regra universal, já que ele é profundamente sensível ao contexto de cada país.
Assim, os multiplicadores tendem a ser maiores em economias menos abertas ao comércio internacional e naquelas que operam sob regimes de câmbio fixo. Os multiplicadores são maiores durantes recessões ou quando a taxa de juro se aproxima do limite inferior de zero (caso de muitas economias ricas depois da grande crise financeira global de 2008-2009). Já a instabilidade econômica e política – incluindo incertezas sobre a política fiscal, como no caso do Brasil – reduz o multiplicador.
Um achado curioso do estudo é que a proximidade de eleições costuma gerar anúncios de gastos que, na prática, se traduzem pouco em mudanças efetivas na despesa realizada. Já outro resultado é meio óbvio: quando o governo tem muito apoio político, o aumento de gasto planejado é de fato executado, resultando em um impacto na economia mais forte.
O estudo reforça que a política fiscal tem que ser muito bem pensada e comunicada para que seus efeitos sejam eficazes. Com a alta global das dívidas públicas, usar impulsos fiscais para estimular a economia é algo a ser feito com precisão cirúrgica, e não ao sabor do populismo político.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/3/2026, terça-feira.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







