Vorcaro é preso em nova fase da Operação Compliance Zero

Ministro André Mendonça, do STF, também determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões em bens dos alvos da terceira fase da Compliance Zero. Crédito: Estadão

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, colocou “A Turma” para monitorar o ex-marido de sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff. “A Turma” era um grupo de WhatsApp do banqueiro que a Polícia Federal (PF) descreve como “milícia privada”, criada para monitorar, atacar e intimidar desafetos. O grupo foi um dos alvos centrais da terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta, 4. Graeff também foi alvo de tentativa de monitoramento pela mesma equipe mantida por Vorcaro.

Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou ter pedido “ao Supremo Tribunal Federal a instauração de investigação para apurar a origem dos sucessivos vazamentos de informações sigilosas provenientes dos telefones celulares apreendidos no curso da investigação” (leia posicionamento completo mais abaixo). Martha não respondeu a pedido de entrevista até a publicação desta reportagem.

Em diálogos extraídos pela PF, há indicações do uso de hackers para acessar e obter informações das redes sociais de Martha. Há a suspeita de que a equipe de Vorcaro teria falsificado um ofício do Ministério Público para solicitar informações de uma rede social de Martha Graeff à Meta, responsável pelo Facebook e Instagram. O uso de documentos falsos era uma prática comum da “Turma”.

As conversas entre Vorcaro e a então namorada mostram que o banqueiro colocou esse time atrás de Rony Seikaly, ex-marido de Martha. Seikaly afirmou ao Estadão, por telefone, não ter se sentido ameaçado nos EUA, onde mora. “Talvez, se eu morasse no Brasil,a situação seria outra”, afirma. “Mas gostaria mesmo que as autoridades brasileiras e dos EUA se voltassem ao desvio de recursos para o exterior.”

No dia 10 de outubro de 2024, Vorcaro escreveu para Martha: “Amor, vou te falar tudo ok. Mas a turma ja colocou vigilancia nele eletronica e fisica (sic)”, referindo-se a Seikaly. “Vao ficar em cima dele pra pegar todo e qualquwr outro deslize. Essa ele se fudeu demais. Vc tem prova pra sempre contra ele (sic).”

A iniciativa foi tomada, segundo as conversas, porque Seikaly, que foi uma estrela da NBA e hoje atua como DJ e empresário, havia criado uma conta falsa de Instagram para perseguir o casal. Um cruzamento de antenas de transmissão de telefonia da operadora americana AT&T, feita pela “turma” de Vorcaro, chegou ao endereço de Seikaly, comprovando o vínculo com a conta.

“Os caras gostam demais de mim”, continua Vorcaro sobre sua “turma” nas mensagens. “Querem fazer tudo de pior. Prender. Etc. Kkk eu pedi pra esperar.” Martha diz que que fazer um processo legal e, posteriormente, tem uma reunião com advogados de Vorcaro para tratar do dossiê criado contra o ex-marido.

Martha expressa repetidamente seu temor de perder a guarda de sua filha com Seikaly, que descreve como “o maior medo da vida”. Cita também que Seikaly a impedia de ficar com a criança quando ele estava viajando, preferindo deixá-la com a babá do que com a mãe.

Vorcaro afirma que “acabou de contratar uma equipe de solo e digital. Vão monitorar ele 24/7. Irao em todas as festas que ele toca. Qualquer deslize agora, de droga ou qq coisa estara documentado. Se quisermos inclusive o instagram vai banir o insta dele ja (sic).” Martha pede então que Vorcaro faça isso e diz que não pode se mudar (para morar com Vorcaro) “sem antes dar esse susto nele”.

Em mensagens em novembro do mesmo ano, Vorcaro diz novamente que a turma continua monitorando Seikaly. “Minha turma ta em cima dele. Foram pra colombia. Ny. Toda festa agora que ele vai tem equipe (sic)”, escreve a Martha. O objetivo, diz ele, é protegê-la.

“Ele nao vai fazer nada com voce. Nunca mais. Se fizer nos vamos pra cima dele com toda força”, afirma nas mensagens.

Vorcaro diz ainda que a PF e as agências internacionais FBI e Interpol foram notificados para rastrear o sinal do telefone e o endereço IP vinculado à conta falsa. “Cara queria ja incluir ele tb num processo de violência domestica no brasil, que da mais tempo ainda de cadeia. Fake news e violência domestica abuso contra mulheres etc.”, escreve ele. Quando Martha responde que o processo tem de ser conduzido nos EUA, Vorcaro afirma que é melhor no Brasil “que aí controlo e aí passa pra Interpol”.

Outros investimentos e estratégias

O banqueiro preso na quarta-feira foi o principal financiador da empresa de Martha, a marca de suplementos Happy Aging, que ela anuncia a seus quase 700 mil seguidores no Instagram.

Além de aportar capital, Vorcaro a orienta com relação a gastos e contabilidade. Ele diz a Martha para faturar despesas para uma empresa dele sediada nas Bahamas, a Oceanview Ltd. Ele pede que ela envie faturas para sua assistente financeira, Lori, para que o pagamento seja processado por essa entidade estrangeira.

Ele também propõe que o aluguel do apartamento de luxo em que moram no Four Seasons, em Miami, seja feito por meio da empresa pessoal de Martha sob a forma de um “contrato de mídia”. Ele afirma explicitamente que, dessa forma, “não tem imposto nenhum”. Essa operação mascara a natureza real da despesa para obter benefício fiscal.

Defesa não responde a questionamentos

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro diz ter solicitado a apuração dos vazamentos, mas não respondeu aos questionamentos. Leia a íntegra da nota:

“A defesa de Daniel Vorcaro informa que solicitou ao Supremo Tribunal Federal a instauração de investigação para apurar a origem dos sucessivos vazamentos de informações sigilosas provenientes dos telefones celulares apreendidos no curso da investigação.

O espelhamento dos dados dos aparelhos apreendidos foi entregue à defesa apenas no dia 3 de março de 2026 e o HD foi imediatamente lacrado na presença da autoridade policial, dos advogados e de tabelião, para preservar o sigilo das informações.

Apesar disso, diversas mensagens supostamente extraídas desses aparelhos passaram a ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias, mesmo sem que a própria defesa tenha tido acesso ao conteúdo do material. Conversas íntimas, pessoais e que expõem terceiros não envolvidos com os fatos, além de supostos diálogos com autoridades e até o ministro do STF, Alexandre de Moraes, talvez editadas e tiradas de contexto, têm sido divulgadas para os mais diversos órgãos de comunicação.

Diante da gravidade da situação, a defesa requereu que seja instaurado inquérito para identificar a origem dos vazamentos e que a autoridade policial apresente a relação de todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos apreendidos.”

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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